12 de maio de 2015

Gerações de graduados formados a partir da política de cotas já fazem diferença

Sociólogo da UFRJ, Paulo Baía avalia que as ações afirmativas tiveram uma importante função na sociedade ao permitir que jovens buscassem ir além de onde chegaram seus pais

Com a adoção da política de cotas por parte das universidades públicas, isso começa a mudar. Negros, estudantes de escola pública, jovens da periferia e das favelas têm a chance de sonhar com uma carreira, com a possibilidade de fazer pós-graduação ou até mesmo estudar no exterior.

“Eu fui a primeira da família a fazer faculdade, isso deu uma alegria muito grande para todo mundo. Minha mãe nunca pode sonhar com isso e minha avó também não podia incentivar. Hoje é diferente. Os pais já conseguem vislumbrar um futuro melhor para os filhos, então dizem para eles estudarem, estimulam a vontade de fazer faculdade”, conta Letícia Melo, de 28 anos. Designer, ela foi cotista na Uerj, onde se formou em 2010 no curso de Desenho Industrial.

Recém-formado em Engenharia da Computação pela Uerj de Nova Friburgo, o ex-cotista Pedro Arthur Souza, 24 anos, apresentou recentemente seu trabalho sobre softwares livres no Japão. Além disso, durante quatro anos ele participou do Google Summer Codes, um projeto patrocinado pela empresa norte-americana de tecnologia, que oferece bolsas para estudantes desenvolverem códigos computacionais para softwares livres, nas próprias universidades.

“As cotas foram importantes para mim por dois motivos: sem essa política, eu não teria entrado na universidade em 2010, talvez no futuro se eu continuasse tentado conseguiria, mas seria bem mais difícil, pois sempre estudei em escola pública e não poderia pagar um curso de reforço, para poder competir com alunos de escolas particulares; além disso, como cotista eu recebi uma bolsa-permanência, que foi fundamental porque a minha família é pobre. Sem essa ajuda, certamente seria muito difícil concluir a graduação, pois eu teria que trabalhar. Mas as aulas eram durante todo o dia, então acabaria abrindo mão”, explica Pedro.

Sociólogo da UFRJ, Paulo Baía avalia que as ações afirmativas tiveram uma importante função na sociedade ao permitir que jovens buscassem ir além de onde chegaram seus pais. “As pessoas que se beneficiam com a política de cotas têm um déficit histórico de exclusão social. A política dá oportunidades a quem não teria, e a experiência histórica nos mostra que eles têm um desempenho excelente. Já temos uma geração de vários doutores ex-cotistas. Muitos estão no programa Ciências Sem Fronteiras, fazendo doutorado no exterior. Mesmo sem cotas na pós-graduação, aumentou muito o número de negros se especializando, pois já estão em condições iguais de disputar”, afirma Baía.

Atualmente, Pedro faz mestrado e Letícia pensa em fazer especialização. O engenheiro ressalta que ainda não viu nenhum negro nas aulas da pós-graduação, mas que percebe um número razoável de descendentes, ou seja, mulatos e pardos. “Eu me incluo nesse grupo, pois meu pai é negro”, conta Pedro Arthur.

Mitos: Igualdade

Alguns críticos da política de cotas alegam que as ações afirmativas ferem o princípio da igualdade previsto em Constituição. Mas segundo cartilha elaborada pelo Laboratório de Políticas Públicas da Uerj, “a igualdade de fato é tão somente um alvo a ser atingido, devendo ser promovida, garantindo a igualdade de oportunidades como manda o Art. 3º da Constituição Federal. As políticas públicas de afirmação de direitos são, portanto, constitucionais e absolutamente necessárias”.

Mérito

Outro argumento usado contra as cotas é de que o mérito acadêmico deveria ser o único requisito para acesso à universidade. Porém, a defesa da Uerj é de que “o vestibular está longe de ser uma prova equânime que classifica alunos segundo sua inteligência. As oportunidades sociais ampliam e multiplicam as oportunidades educacionais.”

Nível acadêmico

Com relação à argumentação de que as cotas baixariam o nível acadêmico das universidades, o Laboratório de Políticas Públicas da Uerj rebate: “diversos estudos mostram que nas universidades onde as cotas foram implementadas não houve perda da qualidade do ensino. Essas universidades (como a Uneb, UnB, Ufba e Uerj) demonstraram que o desempenho acadêmico entre cotistas e não cotistas é o mesmo.

Mercado não discrimina cotistas

Especialista em Gestão de Pessoas do Ibmec/RJ, Janaina Ferreira afirma que o mercado de trabalho não discrimina cotistas. “Depois de formado, todo mundo recebe o mesmo certificado. E o mercado seleciona a partir da formação, da experiência. Mas discriminação e preconceito existem, não a partir da caracterização de um aluno cotista, mas de cor de pele, religião e biotipo. Tem empresas que declaram internamente que não podem contratar pessoas com determinado perfil”, admite Janaina.

A Uerj, primeira universidade a ter cotas no estado, foi procurada pela reportagem, mas não tem estudos recentes sobre a absorção dos alunos pelo mercado de trabalho. O último levantamento é de 2011 e mostra que nove em cada 10 formandos beneficiados por reserva de vagas estavam no mercado de trabalho. Seis, na sua área de formação.

Levantamento coordenado pela Sub-Reitoria de Graduação revelou que 90% dos cotistas não pensavam em parar os estudos. Entre os egressos, 67% haviam concluído pós-graduação e 39% frequentavam mestrado.

Solução temporária

Para o sociólogo Paulo Baía, a política de cotas é uma solução temporária, enquanto ainda existe disparidade no Ensino Fundamental. “Concordo com os críticos que alegam que as ações afirmativas não resolvem o problema da Educação completamente. As cotas devem ser transitórias. Espera-se que no futuro o Brasil tenha efetivamente uma base educacional decente e as cotas não sejam mais necessárias, pois todos poderão concorrer com igualdade”, afirma.
Para Letícia Melo, ex-cotista da Uerj, a política é necessária neste momento, mas não substitui uma reforma educacional nos segmentos mais básicos.

“É uma forma de remediar a situação que a gente vive hoje. Se não fosse pelas cotas eu não teria entrado na universidade pública. Mas essa política não resolve o problema da Educação no Brasil. O ideal é que fosse uma solução temporária”, argumenta.